O fogão que tinha parte com o cão
No início de 1970 ainda morávamos na casa da Carlos Gomes, em Salvador, e a feira livre da cidade alta era no largo 2 de julho. Era permanente mas tinha o seu ponto alto aos sábados, quando todos os produtores, pescadores e marisqueiros do recôncavo e das ilhas da Baía de Todos os Santos traziam suas produções e faziam a feira fervilhar.
Minha mãe tinha imenso prazer em “fazer a feira” pessoalmente. Escolhia cada fruta, cada verdura, cada legume. A maioria deles comprados na imensa e organizada barraca de Seo Pernambuco, única bem apanhada. Lá, ao chegarmos recebíamos imediatamente um banco cada, para descansarmos, e um copo de Ki-suco. Eu amava acompanha-la. Era um grande divertimento. Comia frutas frescas, provava, como boa baiana, as diversas farinhas de mandioca imitando mainha. Ela, com especial habilidade e charme, jogava cada punhado apanhado com a ponta dos dedos em direção à boca, sem perder um grão sequer, a uma distância mínima de 10 cm. Uma verdadeira arte só vista na minha Bahia.
Cada item comprado era dirigido à barraca de Pernambuco aonde toda a compra era concentrada para arrumação no imenso balaio de vime, que às vezes eram dois. Em vésperas de festas chegava até a três. Depois de bem cheios eram transportados na cabeça dos moleques que faziam frete e traziam consigo grandes rodilhas que eram habilmente colocadas entre a cabeça e o balaio, para equilibra-los sem precisar o auxílio das mãos.
A feira era uma efervescência. Cada barraqueiro gritava mais alto que o vizinho, buscando a atenção dos fregueses. As barracas jamais foram padronizadas o que fazia da feira do Largo 2 de Julho uma bagunça total organizada. Sim, porque havia a demarcação por setores: frutas e legumes, carnes, mariscos, flores, etc. Havia até barracas de comidas, com rádios ligados às alturas, que mereciam atenção especial.
Aquelas barracas tinham um balcão improvisado e em seus interiores ficavam os caldeirões areados. Reluziam como espelhos. Cada um deles representava um item do cardápio: mocotó, sarapatel, feijoada, buchada de bode, mininico de carneiro...
Ao lado dos caldeirões eram vistos dois baldes de metal cheios de água, um deles com sabão também. Os pratos eram todos lavados ali. Primeiro passavam no balde com água e sabão e depois eram mergulhados no vizinho contendo água limpa, para o enxágüe. Os copos passavam pelo mesmo processo. Os fregueses consumiam um trago de cachaça, já incluso no preço, para abrir o apetite. Os balcões ficavam lotados e tinha até fila.
Cada prato feito era acompanhado de uma cuia, de queijo reino, cheia de farinha de mandioca e os fregueses, em sua grande maioria, colocava um dos cotovelos no balcão e com a destra devoravam o imenso prato fundo cheio, dispensando talheres. Até hoje fecho os olhos e sinto aqueles cheiros misturados e gostosos. Eu morria de vontade de comer ali, o que era vetado por mainha. Muitos anos depois, já adulta, realizei o sonho na Feira das Sete Portas. Comi feijoada, uma delícia maior pela expectativa, que pelo sabor.
Todos os sábados eram iguais. Exceto um em que a babá havia acompanhado meus irmãos Tripa e Quatro Olho ao Jardim da Piedade e Júlia, nossa governanta, tinha ido ao consultório de Felipe, dentista da família. Mainha preocupada com o adiantado da hora e com medo de não encontrar mais frutas, legumes e verduras de boa qualidade, pediu então a Báia, nossa lavadeira, que ficasse em casa até voltarmos e aproveitasse para olhar o leite que tinha sido posto a ferver. Quando fervesse, que desligasse o fogo.
Vale salientar que Báia morava em Salinas da Margarida, ilha da baía de Todos os Santos, lugar atrasado, sem luz, água encanada ou outras modernagens. Ela vinha a Salvador todos os sábados na Albatroz, lancha do mestre Moreno, que trazia ao cais do Mercado Modelo todos os feirantes para negociarem seus produtos. Báia então trazia a trouxa de roupa lavada e levava a de roupas sujas da semana. Como a Albatroz só zarpava às 2 da tarde, ela ficava lá em casa mascando e pitando charuto, agachada a um canto e com o vestido enfiado entre as coxas, visto que não usava roupa de baixo. Ela é comadre de mainha e portanto de extrema confiança.
Pois bem. Feitas as recomendações, rumamos à feira. E por lá permanecemos por meia hora quando, de súbito, mainha me disse: estou com mau pressentimento, vou voltar em casa. Depois faço o resto da feira. E rumou a passos largos.
Ainda bem. Santo forte o de mainha. Quando chegamos em casa, ao subirmos as escadas já sentíamos o cheiro forte de gás. Entramos em casa e encontramos Báia largada no meio da copa, pálida como papel- e olha que ela é mulata.
Mainha não se conteve e gritou: -Báia, pelo amor de Deus, o que aconteceu?
- Cumade Maria, esse seu fogão tem parte com o cão!!!!! O leite freveu e eu fiquei querendo apagar o fogo. Soprava de um lado, ele acendia do outro. Soprava de um lado, ele acendia do outro. Fiz isso umas dez vez e nada. Aí tive uma idéia, enchi uma panela dágua, chamei por Yemanjá e joguei nele. Só assim ele apagou. Esse seu fogão tem parte com o tinhoso.
Minha mãe mal se conteve e correu à cozinha. Desligou o registro de gás e abriu todas as portas e janelas da casa. Eu, menina sapeca que era, me embolava de rir enquanto Báia tinha engulhos de tanto gás que aspirou. Mas essa de Báia não foi a última não, adiante tem mais.
A autora Elza Ramos é publicitária, pedagoga e iyalorixá